quinta-feira, 31 de março de 2016
terça-feira, 29 de março de 2016
Cinco caminhos possíveis para novas eleições.
Com um possível
impeachment da presidente Dilma Rousseff, o vice, Michel Temer (PMDB),
assumiria a Presidência da República até 2018. No entanto, há pelos menos cinco
cenários hipotéticos em que novas eleições seriam convocadas antes do previsto.
Confira:
Possibilidade 1: Dilma e Temer são cassados
O Tribunal Superior
Eleitoral (TSE) analisa, desde o ano passado, uma ação de impugnação da eleição
da presidente, com base em acusações do PSDB de que a campanha da chapa
Dilma/Temer teria sido financiada parcialmente pelo esquema de corrupção
envolvendo a Petrobras e investigado pela Operação Lava Jato.
Se o tribunal
julgar o pedido procedente, tanto a petista quanto o peemedebista poderiam ser
cassados.
Neste cenário,
assumiria temporariamente o poder o presidente da Câmara dos Deputados (função
exercida atualmente por Eduardo Cunha, também do PMDB).
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Se essa cassação
ocorresse ainda na primeira metade do mandato (ou seja, até o fim deste ano), o
líder do Legislativo teria de convocar novas eleições em até 90 dias; mas, se
fosse decidida na segunda metade do mandato, o Brasil teria eleições indiretas,
com apenas deputados federais e senadores apontando um sucessor.
É importante
ressaltar que o resultado das eleições de 2014 não seria levado em conta - ou
seja, o senador Aécio Neves (PSDB), derrotado por Dilma no segundo turno, não
assumiria a Presidência. Mas, obviamente, poderia disputar o novo pleito.
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Leia também: Linha sucessória de Dilma tem três citados na Lava Jato
Possibilidade 2: Renúncia coletiva
Outra possibilidade
teórica para convocação de novas eleições seria uma improvável renúncia
coletiva da presidente e do vice. Neste caso, o presidente da Câmara assumiria
temporariamente e novas eleições seriam convocadas.
Possibilidade 3: Temer é alvo de impeachment
Já existem
articulações para encaminhar um pedido de impeachment de Temer caso ele venha
assumir a cadeira presidencial. Se tivessem sucesso, o cenário de novas
eleições se repetiria.
Mas é bom lembrar
que, para ser acolhido, um pedido de afastamento contra ele teria de ter como
argumentos irregularidades ocorridas durante seu mandato na Presidência da
República.
Importante também
notar aqui que os prazos determinando a eleição direta e indireta seriam
contados a partir do início do segundo mandato de Dilma (1º de janeiro de
2015), não a partir do início do período "tampão" de Temer.
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Leia também: Foto de brasileiro em onda de calor de Havana vence
concurso mundial de fotografia
Possibilidade 4: Temer assume... e renuncia
Um possível governo
Michel Temer não estaria imune à instabilidade. Além das pressões políticas, o
vice pode também ser alvo da Justiça, uma vez que foi citado na delação do
senador Delcídio Amaral (ex-PT-MS).
Na colaboração
premiada que firmou com a Procuradoria-Geral da República, Delcídio, que foi
líder do PT no Senado, afirmou que Temer articulou a indicação de Jorge Zelada
para o cargo de diretor da área internacional da Petrobras e de João Augusto
Henriques para a BR Distribuidora.
Zelada, apontado como
o elo do PMDB no esquema, foi condenado a 12 anos de prisão. Temer disse que
não participou das indicações, e o PMDB nega ter participação no caso.
Diante de uma
eventual escalada nas pressões, um possível cenário seria o de renúncia do
peemedebista. Neste caso, o presidente da Câmara assumiria a cadeira
presidencial até novas eleições diretas ou indiretas, assim como listamos na
possibilidade 1.
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Leia também: 'Como estive a ponto de virar uma mulher-bomba'
Possibilidade 5: Referendo é aprovado
Parlamentares no
Senado e na Câmara querem levar a plenário propostas de referendo para que a
população decida sobre o afastamento ou não de Dilma e Temer.
O modelo defendido
é o de referendo revogatório (também conhecido como "recall"),
adotado em países como Alemanha, Estados Unidos (em determinados Estados),
Suíça e Venezuela.
Diferente do
impeachment, que exige a comprovação de crimes políticos, o "recall"
prevê que presidentes e parlamentares possam ser afastados em caso de
ineficiência ou desaprovação popular, se a maioria da população assim decidir.
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Leia também: Milionários fazem campanha para pagar mais impostos nos EUA
Na última
sexta-feira, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) apresentou uma PEC
(Proposta de Emenda à Constituição) defendendo a pauta.
"A melhor
alternativa para esta crise é levar para a soberania popular resolvê-la",
disse Randolfe à BBC Brasil. "O governo padece de uma crise de
legitimidade. O impeachment não resolve o problema, porque (Michel) Temer já
foi citado algumas vezes na Lava Jato (na delação do senador Delcídio do
Amaral)."
A proposta, no
entanto, não conta com apoio para ser aprovada: "Por mim, e acho que pela
maioria esmagadora dos deputados, esta PEC não será acolhida. O que interessa
ao PSOL e à Rede em defender o referendo? Essa proposta é um arranjo. É baseada
em interesses partidários que não podem prevalecer sobre o interesse
nacional", disse à BBC Brasil o líder do PSDB na Câmara, Antônio Imbassahy
(BA)
Leia mais em: http://zip.net/bxs5XS
segunda-feira, 28 de março de 2016
'As pessoas diziam que eu estava louca', diz autora do pedido de impeachment
Aos 41 anos, a advogada Janaína Paschoal vive momentos de celebridade: "Me param muito para tirar selfies na rua. No mercado, na feira, no elevador, em todo lugar. Recebi muitas cartas, até de brasileiros que vivem no exterior", conta.
Professora livre docente da Faculdade de Direito da USP, onde entrou como aluna aos 17 anos, ela é uma das autoras do pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff em tramitação na Câmara. A recepção calorosa pelos defensores do afastamento da presidente, opina, tem motivo: "Acho que as pessoas estavam com isso engasgado".
Com um perfil conservador, Janaína se define como uma "canceriana romântica" que espera poder "mudar o mundo". Diz ser politicamente liberal, mas contra a legalização do aborto e das drogas, e a favor das cotas para negros nas universidades.
Em entrevista à BBC Brasil, ela falou sobre a crise política, o relacionamento com petistas e o que vê como o desfecho ideal para o atual impasse. "É um momento de passar o país a limpo, caia quem tiver que cair, doa a quem doer, inclusive se for do PSDB, do PMDB e de todos os outros partidos", afirma.
Ela defende todos os argumentos do pedido de impeachment, assinado com os juristas Hélio Bicudo e Miguel Reale Jr. Confira os principais trechos da entrevista:
BBC Brasil - O que a levou a redigir o pedido de impeachment?
Janaína Paschoal - Foi uma ideia que passou por um processo demorado de maturação. Entre a primeira intenção e a conversa com o Hélio Bicudo foram três meses, depois de falar com muita gente. Falei sobre o tema na OAB de São Paulo, onde sou conselheira, e também com professores de direito e colegas advogados. Até o PSDB eu procurei, mas ninguém se habilitava. Muitos temiam que suas carreiras ou escritórios fossem prejudicados.
Nas manifestações antigoverno eu via uma frustração muito grande. Ficava muito triste ao ver que não davam em nada, e comecei a perceber a população desanimada. Em agosto do ano passado houve um protesto em que me convidaram a subir num carro do (movimento) Vem Pra Rua, e acabei fazendo um discurso. E aí tudo aconteceu em uma semana.
Me apresentaram ao Hélio Bicudo dias depois e ele foi o primeiro a realmente acreditar em mim. Quando penso neste dia tenho vontade de chorar, porque os outros me olhavam como se eu fosse louca, mas com ele foi um encontro de almas. O Miguel Reale Jr. já tinha feito pareceres a respeito, havia sido meu orientador na USP, e também nos ajudou.
BBC Brasil - A senhora entrou na Faculdade de Direito da USP, a tradicional São Francisco, com 17 anos. Como tem sido a convivência com professores e alunos com perfil de esquerda na instituição?
Paschoal - O Largo São Francisco é a minha casa. Na graduação não tive problemas, mas, assim que eu entrei como professora, sim. Me sinto como um peixe fora d'água, e não só nas questões político-partidárias. É uma mentalidade muito diferente, como um todo.
É quase verdade absoluta lá que você tem que legalizar todas as drogas. Também acham que temos que legalizar o aborto e a exploração da prostituição. Eu não concordo com nada disso. Sou o que a gente pode chamar de liberal, no sentido inglês, e lá é um espaço muito marxista.
BBC Brasil - A senhora diz ter muitos amigos petistas. Como tem sido a convivência com eles?
Paschoal - Tenho vários amigos petistas. Não toco no assunto com eles, porque não aguentam. Muitos falam "e o PSDB?". E aí eu digo: o que eu tenho a ver com isso? Eu não sou do PSDB. Se eles devem, que paguem. Até agora não houve rompimento de relações com ninguém, mas no começo foi muito difícil. Tive dificuldades com alguns parentes, mas acho que agora já conseguimos superar.
A verdade é que o petista não tem liberdade de pensamento. Para eles o Lula é Deus. É intocável e está acima da lei. Não vou endeusar ninguém. Eles acreditam que, pela história dele, ele pode tudo, e infelizmente ele também acreditou nisso, e a presidente também.
BBC Brasil - Como vê as acusações de que o governo está sendo vítima de um golpe, que o impeachment é mais baseado em posições políticas do que em evidências de irregularidades?
Paschoal - Estou tão cansada de repetir a mesma coisa. Está tudo escrito no pedido. Os documentos estão lá, todo o processo do Tribunal de Contas da União, todas as delações do petrolão. Perto do que vemos hoje, o Collor era brincadeira. Essa acusação de golpe é chavão, é discurso de petista.
BBC Brasil - Por essa lógica, podemos dizer então que os gritos de "Fora Dilma, Fora PT" também são chavões? Não seria a mesma coisa?
Paschoal - Não gosto de chavão, mas é "Fora PT" mesmo, eu quero que saia mesmo. Agora, por que é golpe? Por que eles não explicam? Por que não entram no mérito, nos detalhes das coisas?
BBC Brasil - Como avalia a participação de grupos que defendem a intervenção militar nos protestos antigoverno?
Paschoal - Acho que é falta de perceber que, de todos os regimes, o melhor é a democracia, e que defender uma ditadura é uma visão estreita.
Não gosto de ditadura, nem de direita e nem de esquerda, nem militar nem civil. Não é um discurso que me agrada, assim como não me agrada o discurso marxista de querer também fechar aqui, e virar uma Cuba. Defendo o direito de as pessoas falarem o que quiserem. Não é porque não concordo que vou condenar.
BBC Brasil - Grupos e até juristas que apoiam o governo dizem que não houve comprovação de crime de responsabilidade em nenhum dos elementos elencados no pedido de impeachment e na Lava Jato. Como a senhora responde?
Paschoal - Ou as pessoas não estão acompanhando o que está acontecendo no país, ou não sei mais o que é necessário, porque ter responsabilidade implica em tomar providências para fazer a situação cessar e responsabilizar subalternos pelas irregularidades, mas a presidente simplesmente nega os fatos com relação a isso.
Todo esse pessoal que está preso ou esteve preso era próximo a ela. Ela era avisada de que as coisas não estavam bem. E o que ela fazia? Subia no palanque e dizia que era tudo armação, que era golpe, que era mentira, e que a Petrobras estava maravilhosa. Isso não é um comportamento condigno com o cargo de presidente.
As pessoas confundem corrupção com crime de responsabilidade. Em nenhum lugar eu escrevi que a presidente pegou dinheiro para ela. O que eu escrevi é que ela não tomou as providências inerentes ao cargo. Disseram que Edinho Silva fez negociações e abrem um inquérito. Ela põe o homem como ministro (da Secretaria de Comunicação Social). O Lula está sendo investigado, e ela põe o homem como ministro.
O Nestor Cerveró foi ela quem indicou e todo mundo sabe que ele operava tudo aquilo ali. O Paulo Roberto Costa foi até no casamento da filha dela, e, apesar de todos os indícios vindo à tona, ela seguia negando e não afastava as pessoas.
Crime de responsabilidade não está ligado necessariamente a pegar dinheiro para si. Ela tem responsabilidade de zelar pela gestão, pela coisa pública, e afastar quem está sendo investigado, ou quando já há elementos suficientes, mudar diretores. Ela não fez nada disso. Não é negligência, é dolo mesmo. Houve intenção. Ela se omitiu dolosamente. Ela sabia, e o senador Delcídio do Amaral acabou de falar na delação premiada que ela sabia.
BBC Brasil - Como vê o fato de a Comissão Especial ter retirado a delação do Delcídio do pedido de impeachment?
Paschoal - A delação confirmou tudo que a gente escreveu no pedido. É apenas uma prova a mais de que a gente estava com a razão lá atrás. Acho que estão sobrando elementos para esse impeachment. Se ele vai ocorrer ou não, é outra história. Mas, do ponto de vista técnico jurídico, digo que tem que sair.
Anexei a delação do Delcídio como prova, mas ela foi desanexada a pedido dos deputados, inclusive da oposição. Não consigo entender.
BBC Brasil - Também há críticas quanto às pedaladas fiscais. A imprensa relatou que elas foram utilizadas nos municípios e Estados, e que se o Brasil destituir uma presidente com base nisso, ao menos 16 governadores também poderiam ter o mesmo fim.
Paschoal - Sobre isso há documento que não acaba mais. Foram muitos anos. Isso ocorreu em 2013, 2014 e 2015, pegando dinheiro dos bancos públicos sem contabilizar, e não só para programas sociais, mas também para passar para empresários, quebrando os bancos públicos, fazendo uma contabilidade fictícia, de fachada, dizendo que nós tínhamos superavit quando na verdade estávamos com um rombo bilionário.
Sobre os governadores, que tirem, que saiam todos, chega.
BBC Brasil - A senhora diz que outro motivo forte para a queda do governo são os indícios de uma corrupção sistemática, que permeia o Executivo, congressistas e estatais. Como avalia as acusações, em delações premiadas, de que a República vem funcionando assim há décadas, incluindo governos anteriores?
Paschoal - Eu acho que o PT abraçou a corrupção como um método de governo. Vejo uma diferença entre o PT e os governos anteriores. Isso significa que as corrupções anteriores tenham que ficar impunes? Não. Todos devem ser punidos. Mas houve um salto no PT em termos de valores. Não vou pôr a mão no fogo e dizer que não aconteceu (antes), mas não acho que era um método, como os petistas têm, com esquemas desenhados e estruturados.
BBC Brasil - Como a senhora avalia a decisão, do juiz Sergio Moro de divulgar o grampo da conversa entre Lula e Dilma? Na sua visão, o diálogo configura tentativa de obstrução da Justiça?
Paschoal - O Moro não é da oposição. Ele é um juiz independente e sério, que está fazendo um trabalho pelo país merecedor de uma medalha, e não esse monte de pedidos para ele ser preso.
Sobre a retirada do sigilo, eu particularmente não vejo nenhuma ilegalidade. Ninguém está falando, por enquanto, que a presidente cometeu um crime ali, naquele fato. Ele poderia ter sido mais cauteloso e perguntar (ao Supremo Tribunal Federal)? Talvez. Mas talvez tenha pensado que, se demorasse, o fato iria se concretizar e Lula viraria ministro.
Sobre o diálogo, entendi a mesma coisa que todo mundo entendeu. Vai ter que ter uma investigação, claro, mas para mim ela estava dando um salvo-conduto para que, se viessem prendê-lo, ele pudesse dizer que já era ministro. Não quero entrar no mérito se trata-se de obstrução da Justiça, mas creio que no mínimo é uma imoralidade.
BBC Brasil - Como vê a possibilidade de o vice-presidente Michel Temer ser implicado devido ao processo que tramita no TSE, relacionado ao financiamento da campanha de 2014, e as acusações e o pedido de cassação que pairam sobre o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, respectivamente segundo e terceiro na linha de sucessão?
Paschoal - Veja, a situação do país é complicada. Mas agora por isso vou deixar no cargo alguém que não tem condições de permanecer? Acho que a gente precisa começa a enfrentar essa situação, porque não dá mais para jogar a sujeira para baixo do tapete.
BBC Brasil - Como imagina um Brasil pós-impeachment, e como acha que seu nome será lembrado no futuro?
Paschoal - Imagino um Brasil onde as crianças realmente vejam que vale a pena ser correto, ser honesto e fazer o bem.
Preferiria que o vice assumisse e terminasse o mandato e que a eleição acontecesse no momento adequado, que é 2018. Acho que para o país isso é melhor. E não é porque eu ame o Temer, é porque é questão institucional, acho que é melhor que a eleição aconteça na data certa.
Sobre o meu nome, não sei. De verdade eu não sei. A história pertence aos homens, e o meu compromisso é com Deus, apesar de não ter uma religião específica. O meu compromisso é com o que eu acho que é justo. Como a história vai escrever, se é que vai escrever, não me pertence.
terça-feira, 22 de março de 2016
Para juiz da Ficha Limpa, solução seria cassação pelo TSE com nova eleição.
Um dos autores e porta-voz da Lei
da Ficha Limpa, o juiz maranhense Márlon Reis acredita que a melhor solução
para a atual crise política não seria o impeachment, mas, sim, novas eleições
convocadas após uma eventual cassação de Dilma Rousseff e Michel Temer pelo TSE
(Tribunal Superior Eleitoral). "Essa solução tem o mérito de dar aos
cidadãos a palavra final, pois demanda a convocação de novas eleições."
Para ele, as revelações da
operação Lava Jato não trouxeram revelações de práticas novas. "Todos os
observadores da política brasileira sabiam de antemão dessa relação inadequada
entre grandes empreiteiras e governos. Essas práticas marcavam a conduta de
todas as empresas que mantém elevados contratos com poder público", diz.
Em entrevista ao UOL, Márlon diz
ainda que a prática investigada na Petrobras se repete, em escalas diferentes,
em Estados e municípios. "Há apenas uma diferença em relação ao
quantitativo alcançado", comenta.
Leia os principais trechos da
entrevista:
UOL - Nos últimos dias, muita
gente tem se dito atônita com as revelações dos grampos e vazamentos de
informações da operação Lava Jato. Mas esse tipo de negociata já era algo
denunciado pelo senhor há anos. Há alguma prática nova, não conhecida, ou
apenas a revelação do que já se sabia?
Márlon Reis - A operação Lava
Jato revela uma série de condutas que constituem uma decorrência lógica do
modelo de financiamento de campanhas que era adotado no Brasil. O sistema
partir de três premissas: fontes empresariais de recursos, ausência de teto de
arrecadação estabelecido em lei e falta de transparência na prestação de contas
eleitorais. A mensagem transmitida por esse modelo era de que as campanhas
deveriam ser encaradas como uma "corrida pelo ouro". Houve uma
institucionalização do abuso do poder econômico. E lamentavelmente era a
própria lei quem construía esse quadro de degradação política. Todos os
observadores da política brasileira sabiam de antemão dessa relação inadequada
entre grandes empreiteiras e governos. Essas práticas marcavam a conduta de
todas as empresas que mantém elevados contratos com Poder Público. E
invariavelmente comprometiam os mandatos. Antes mesmo da inclusão da Lava Jato
publiquei o livro intitulado " O Nobre Deputado", onde descrevia
relações idênticas ao que está sendo revelado. O livro foi construído com base
em uma série de entrevistas que realizei com líderes políticos em diversas
partes do país.
Essa prática se reproduz em
outras esferas de poder?
Essas práticas acontecem desde as
menores prefeituras e se reproduzem nos governos estaduais. Tudo fruto de um
sistema anacrônico e que ainda não está de todo superado. O que mais chama
atenção nos desvios ocorridos no âmbito da Petrobras é o montante dos valores
envolvidos. Esses desvios se repetem em quase todos os estados e municípios,
havendo apenas uma diferença em relação ao quantitativo alcançado.
O meio jurídico também anda
dividido por conta das ações do juiz Sergio Moro. A transparência dada ao caso
é boa ou há exageros?
Não opinaria sobre as decisões de
outro magistrado por respeito à ética profissional. Por convicção filosófica,
digo que a transparência é sempre preferível ao segredo.
Você entende existir motivo para
impedimento da presidente? E de prática de crime eleitoral em 2014?
O impedimento é baseado constitucionalmente
em temas políticos. Ele reclama a existência de fundamentos para a abertura de
um processo de natureza ético-política. Depois disso, ocorre uma medição de
forças baseada em critérios estritamente partidários. O impeachment tem o
demérito de trasladar ao mais alto posto da República alguém que não conta com
a legitimidade do voto. Sem entrar no mérito dos desvios debatidos no âmbito do
Tribunal Superior Eleitoral, é preciso democraticamente reconhecer que o
tribunal tem o papel constitucional e a legitimidade adequada para descontinuar
mandatos eventualmente conquistados em um quadro de quebra da legalidade. Essa
solução tem o mérito de dar aos cidadãos a palavra final, pois demanda a
convocação de novas eleições.
Que lições você espera que o país
tenha depois dessa crise? Mudaremos ou voltaremos a eleger fichas-suja
normalmente, como sempre fizemos?
O Brasil está melhorando. Essa
crise nos ajudou a eliminar o drama das doações empresariais. Finalmente
conseguimos bani-las do nosso modelo eleitoral. Também teremos pela primeira
vez eleições com um teto de gastos. Penso que os valores deveriam ser muito
menores, mas não posso deixar de reconhecer o avanço. Além disso, teremos
relatórios financeiros divulgados pelos candidatos durante toda a campanha.
Seremos capazes de saber o quanto dizem haver arrecadado e comparar essa
informação com o volume de campanha. Além disso, temos a Lei da Ficha Limpa,
que ajudará a eliminar candidaturas de pessoas gravemente comprometidas pela
mácula da corrupção. As crises passam. As instituições ficam. Estamos
caminhando.
Leia mais em:
http://zip.net/bhs3Dh
segunda-feira, 21 de março de 2016
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